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Shantideva - Bodhisattvacharyavatara VII: A Perseverança (Versos 1-35)

domingo 18 de Julho de 2010, por Buddhachannel Portugal

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Shantideva - Das Bodhicaryavatara




Capítulo VII : A Perseverança

[1] Agora que ganhamos a paciência, devemos cultivar a perseverança, pois é nela que a iluminação toma assento. Assim como sem vento não há movimento, sem perseverança o mérito espiritual é certamente impossível.

[2] O que é a perseverança? A perseverança é o entusiasmo pelo bem. Quem são os seus adversários? A indolência, o apego ao mal, o desencorajamento e o desprezo de si.

[3] A inércia, o gosto pelo prazer e pelo dormir engendram a insensibilidade à dor das transmigrações; daí nasce a indolência.

[4] Presa desses pescadores que são as emoções negativas, desde que caíste na rede dos nascimentos, como não compreendeste ainda que entraste nas goelas da morte?

[5] Será que não vês os teus companheiros morrerem, uns seguindo aos outros? Como te deixas levar pela indolência, como um búfalo a caminho do abate?

[6] Yama, o senhor da morte, está à tua espera e qualquer outra saída te é vedada. Como consegues deleitar-te no comer e no dormir?

[7] A morte carrega sobre ti! Antes que ela chegue, acumula sabedoria e méritos. Na hora de morrer, mesmo que sacudas a tua indolência, que poderás fazer?

[8-9] "Isto não foi feito, aquilo mal comecei, isto ainda vai a meio e a morte apareceu de imprevisto. Ah! Estou perdido!" É assim que vais pensar quando, rodeado pelo desespero dos teus familiares, os olhos arregalados pela aflição e inflamados pelas lágrimas, estiveres diante dos mensageiros da morte.

[10] Quando, torturado pela lembrança dos teus erros, atordoado pelo clamor do inferno, sujo nos teus próprios excrementos, estiveres perdido e no auge do teu pavor, que vais fazer?

[11] Tu, que até nesta vida te assustas, como um peixe fora da água, que será de ti, malfeitor, face aos terríveis suplícios do inferno?

[12] Como podes permanecer tão tranqüilo quando tens perante ti os infernos que constróis com as tuas próprias ações? Não sentes já a tua carne delicada a fundir em contato com os metais em fusão?

[13] És um desleixado, mas invejas as recompensas. És um piegas e o teu destino são todos os sofrimentos. A morte já te abraça mas imaginas-te imortal. Ai de ti! O sofrimento vai destruir-te!

[14] Tens a barca do ser humano: não hesites na travessia do rio da dor! Tolo, não vês que não é a altura de dormir? Vai ser muito difícil encontrar esta barca de novo.

[15] Como consegues renunciar à excelente jóia que é o Dharma, uma nascente de alegrias sem fim, pelo prazer dos risos e distrações que apenas servem para engendrar a dor?

[16] A coragem, a armada dos antídotos, a aplicação, o domínio de si, o pensamento de que os outros são tão importantes como eu, a inversão de si pelos outros, são os fatores da perseverança.

[17-18] Não nos devemos desencorajar pensando, "Como hei de conseguir a iluminação?", uma vez que o Tathagata disse, em boa verdade, que outrora foram moscas, moscardos e mosquitos ou vermes os que, pelo seu esforço, obtiveram a iluminação, tão difícil de alcançar.

[19] Ora, eu que nasci como humano, capaz de discernir o bem do mal, porque não haveria eu também, seguindo as regras dos oniscientes, de obter a iluminação?

[20] Mas não é que tremo com a idéia de dar as minhas mãos, os pés e os outros membros? Parece-me que, por falta de reflexão, confundo o que é grave com o que é insignificante.

[21-22] O que é grave é ser cortado, esquartejado, queimado e lacerado durante inumeráveis milhões de Kalpas e sem obter a iluminação. O que é insignificante é esta dor limitada, que leva à iluminação, semelhante à dor da extração de um espinho cravado na carne que põe fim ao sofrimento que causava.

[23] Todos os médicos curam recorrendo a operações dolorosas; por conseguinte, é preciso sofrer um pouco para eliminar grandes sofrimentos.

[24] Mas o médico supremo não utiliza estas operações ordinárias; é por métodos suaves que cura as mais graves doenças.

[25] Primeiro, o mestre prescreve ao seu discípulo que dê legumes e outros alimentos, depois, gradualmente, torna-o capaz de sacrificar mesmo a própria carne.

[26] Àquele que chega ao ponto de olhar da mesma maneira legumes e a própria carne, nada lhe custa sacrificar, nem a carne, nem os ossos.

[27] Virtuoso, está protegido do sofrimento físico, sábio, do sofrimento mental; pois a mente sofre pelos erros e o corpo pelos maus atos.

[28] O corpo está contente graças à virtude e a mente graças à sabedoria. Permanecendo no ciclo das transmigrações por compaixão dos seres, de que haveria de sofrer?

[29] Destruindo as suas faltas passadas e dessedentando-se de oceanos de mérito, pela força da Bodhichitta vai mais rápido que os Shravakas.

[30] Indo assim de alegria em alegria, que pessoa inteligente se desencorajaria, se recebeu esta carruagem que é a Bodhichitta, que o poupa a qualquer dor ou fadiga?

[31] Para realizar o bem dos seres é necessária uma armada de quatro corpos: aspiração, firmeza, alegria e renúncia. A aspiração adquire-se pelo receio da dor e pelo pensamento das vantagens da liberação.

[32] Assim, tendo afastado os inimigos da perseverança, com a aspiração, a confiança em si, a alegria e a renúncia, esforcemo-nos para a aumentar, graças à força da aplicação e ao domínio de si.

[33] Tenho de acabar com vícios inumeráveis, meus e dos outros. Mas nesta tarefa a destruição de cada vício só se consegue ao fim de uma infinidade de Kalpas!

[34] Para esta empresa da destruição dos vícios, não sinto em mim a mais pequena parcela de energia. Fadado às dores sem fim, não sei como o meu peito não se desconjunta!

[35] Preciso ganhar numerosas virtudes, para mim e para os outros, mas a prática de cada virtude só se obtém ao longo dos oceanos de Kalpas, e mesmo assim...


Fonte : http://www.dharmanet.com.br


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