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A Vida de Shantideva

quinta-feira 22 de Julho de 2010, por Buddhachannel Portugal

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Shantideva nasceu no século VII na antiga província de Saurastra, na Índia. O seu pai, Kalyanavarman, que era o rei dessa província, chamou-lhe Shantivarman, Armaduza da Paz. Desde a sua mais tenra idade, o príncipe manifestou profundo respeito pelos mestres espirituais e uma grande bondade pelos habitantes do reino, sobretudo pelos pobres e pelos doentes. Uma dia, encontrou um asceta que lhe ensinou a arte de meditar sobre Manjushri, o Buddha da Sabedoria, e pouco tempo depois Manjushri apareceu-lhe numa visão e abençoou-o.

Quando o rei morreu, a corte preparou em grande pompa a sagração do príncipe erigindo um majestoso trono. Mas na noite anterior à cerimônia, Manjushri apareceu ao príncipe em sonhos sentado nesse trono e lhe disse: "Meu filho, este trono é o meu. Sou o teu mestre espiritual, não é conveniente que partilhemos o mesmo assento." O príncipe acordou e compreendeu que não deveria reinar. Renunciando aos faustos da corte, fugiu e entrou na ilustre universidade buddhista de Nalanda. Foi ordenado monge por Jayadeva, o principal dos quinhentos panditas, e recebeu o nome Shantideva, Divindade da Paz.


Sem que ninguém se desse conta, estudou os Três Cestos (Tripitaka), os ensinamentos do Buddha, e assimilou perfeitamente o seu sentido pela meditação. Compôs então dois tratados: o Compêndio das Instruções (Shiksamucchaya) e o Compêndio dos Sutras (Sutramucchaya), nos quais expôs a essência do seu saber e da sua própria realização. No entanto, aos olhos dos seus companheiros ele não passava de um ignaro preguiçoso a quem chamavam Bhusuku ("o que só sabe comer, dormir e defecar"). Todos achavam imoral alimentar esse "parasita" com as oferendas dos fiéis e decidiram fazer tudo se livrar dele.


Tendo-se posto de acordo, os monges proclamaram que cada um por sua vez devia pregar o Dharma. Pensavam assim que, para evitar ser humilhado, Bhusuku fugiria. Mas não só isso não aconteceu como, apesar da insistência dos seus colegas impacientes para o ridicularizar, ele recusou-se a pregar, argumentando a sua ignorância. O caso foi levado ao abade, que decidiu que o monge recalcitrante se submetesse à regra.



No grande átrio do templo prepararam então um trono inusitadamente alto, dispuseram um altar com numerosas oferendas e convocou-se a assembléia completa dos monges.


À hora prevista convidaram o "parolo" para se sentar. De repente, sem que ninguém se desse conta de como, Shantideva estava sentado em cima desse trono desmesurado. Alguns começaram a se sentir pouco à vontade.


Shantideva perguntou, "Devo comentar um texto conhecido ou devo dar um ensinamento inédito?" Os panditas olharam-se, surpreendidos e trocistas, e responderam, "A vossa aptidão a dormir e as vossas outras maneiras são realmente extraordinárias; o melhor é manter essa tradição específica. Improvisai-nos um discurso." Então, Shantideva expôs o Caminho da Iluminação (Bodhicharyavatara), também conhecido como Guia para o Modo de Vida do Bodhisattva (Bodhisattvacharyavatara), menor que o seu Compêndio das Instruções e mais detalhado que o seu Compêndio dos Sutras.


Enquanto ensinava, a assistência, estupefata, viu Manjushri majestosamente sentado no céu e concebeu uma grande fé. Quando chegou à estrofe

Shantideva elevou-se lentamente no céu com Manjushri, cada vez mais alto, até se tornar invisível. No fim do Caminho para a Iluminação, só se ouvia a sua voz. Os panditas, cuja memória tinha a reputação de infalível, imediatamente puseram o seu discurso por escrito, mas uns encontraram-se com setecentas estrofes, outros com mil e outros com mais ainda. A versão dos panditas de Kashmir tinha nove capítulos e setecentas estrofes, a versão dos panditas de Magadha tinha dez capítulos e mil estrofes. No seu discurso (capítulo 5, estrofes 105-106), Shantideva tinha dito que lessem continuamente o Compêndio das Instruções ou então que se estudasse, como abreviado, o Compêndio dos Sutras.



Ambos os textos eram desconhecidos de todos. Dois panditas de memória infalível decidiram procurar Shantideva. Depois de muitas buscas encontraram-no no sul da Índia, meditando junto a um relicário (stupa). Explicaram-lhe então longamente as razões da sua visita. Shantideva disse-lhes que a versão autêntica era a dos panditas de Magadha e que os dois compêndios estavam em Nalanda, nas traves do telhado da sua cela. Encantados, voltaram a Nalanda e encontraram no lugar indicado os dois manuscritos, escritos na fina caligrafia dos panditas. De novo voltaram para junto de Shantideva, que lhes explicou o sentido desses textos.


A existência extraordinária de Shantideva progrediu sempre. Percorreu a Índia realizando milagres, salvou milhares de pessoas da fome multiplicando o alimento, curou doentes e feridos, deu fé aos incrédulos e viveu como um perfeito Bodhisattva.


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