O Caminho do Meio 1/2
terça-feira 6 de Julho de 2010, por
Este é um breve contorno da filosofia Mahayana de acordo com a escola Prasangika Madhyamika. Os eruditos e escolas tibetanos variam em suas interpretações sobre a visão Prasangika. A seguinte é um sumário do ponto de vista de Longchen Rabjam (1308-1363), o maior erudito da escola Nyingma, exposto no Yidshin Dzodrel Pema Karpo. Um entendimento completo da filosofia Prasangika requer familiaridade com os textos originais e com as visões contrastantes da erudição interpretativa.
No Prasangika, os proponentes não aceitam ou apresentam, como as outras escolas fazem, qualquer teoria em qualquer dos quatro modos, conhecidos como as quatro alternativas de existência: "é", "não é", tanto "é" quanto "não é", não "é" nem "não é". Tomar uma posição ou apresentar uma teoria que caia sob um dos quatro modos é comprometer-se e apegar-se àquela teoria. Isto causa pontos de vista contraditórios e produz uma teoria que tem o defeito de precisar ser defendida. Os prasangikas simplesmente demolem e rejeitam as teorias dos outros. As principais teorias a serem demolidas são aquelas que mantém uma ou outra das visões extremas do substancialismo e do niilismo. O substancialismo [ou eternalismo] afirma a existência de uma entidade universal que gera os fenômenos. O niilismo nega a existência de tal substância subjacente. O método dos prasangikas é expor as conseqüências das visões dos outros sem apresentar qualquer visão própria.
Nagarjuna diz em seu Vigrahavyavartanikarika:
Se eu tivesse apresentado qualquer teoria,
Então estaria em falha.
Mas eu não aceitei qualquer teoria;
Estou totalmente livre de qualquer erro.
Esta filosofia deve ser entendida através da introdução de duas categorias: a natureza absoluta e o nível convencional.
A natureza absoluta
Na natureza absoluta [ou última], não há divisão entre a verdade relativa e a verdade absoluta. Esta divisão é feita apenas no nível relativo ou convencional. No nível absoluto não há duas verdades. Mas o relativo e o absoluto aplicam-se apenas um em relação ao outro. Então, quando a divisão é feita, a verdade é vista como inqualificável mesmo como absoluta. Porém, o "absoluto" também pode basear-se em si mesmo, sendo usado para a natureza não-diferenciada da verdade. O significado absoluto é o estado meditativo de uma pessoa realizada, o estado iluminado de um Buddha, e a natureza absoluta de todos os fenômenos existentes.
A verdade relativa ou aspecto convencional é a realidade percebida pela mente deludida. É o objeto da mente e dos sentidos de uma pessoa comum. O aspecto absoluto é a realização da sabedoria da consciência diferenciadora.
Nenhum aspecto possui qualquer realidade essencial, pois os objetos da mente e dos sentidos são percepções deludidas, adventícias, ao invés de serem essencialmente reais, enquanto a consciência diferenciadora da mente de sabedoria realiza a vacuidade dos seres e dos fenômenos, sua irrealidade essencial. Ambos os aspectos da verdade são ditos como livres dos extremos da elaboração e do julgamento, porque se há elaboração nos fatores e qualificações, o que é percebido torna-se um dos extremos da existência - é, não é, ambos e nenhum. No significado absoluto não há surgimento, permanência ou cessação dos fenômenos. Desde o próprio momento do surgimento, eles são vazios de essência ou realidade, como as aparências em um reflexo. Não há existência nem não-existência neles, e nada há a aceitar e nenhum aceitador de qualquer existência. Nada é surgido ou nascido de qualquer uma das quatro causas possíveis de surgimento: de si mesmo, dos outros, de ambos, ou da ausência de uma causa. Já que não há surgimento de fenômenos, eles não cessam ou permanecem na existência.
Nagarjuna disse no Mulamadhyamikakarika I:
Os fenômenos não surgem de si mesmos, dos outros
De ambos ou da ausência de causa.
Nada, em nenhum lugar,
Sequer surge.
A natureza absoluta é a de não existir em qualquer forma. Transcendendo os objetos da mente dualista, está a indivisibilidade das duas verdades e da liberdade primordial. Os prasangikas, portanto, não apresentam qualquer teoria que diferencia.
O nível convencional
No nível convencional, três aspectos são distinguidos a fim de ilustrar a visão, o caminho e a meta filosóficos do treinamento espiritual: eles são chamados de base, caminho e resultado.
A base
A visão filosófica das duas verdades é a base. Na visão filosófica do nível convencional, os seres fenomenais são divididos em duas verdades, a verdade relativa e a verdade absoluta. Nagarjuna disse no Mulamadhyamikakarika XIV:
Os ensinamentos expostos pelos Buddhas
São baseados nas duas verdades:
A verdade relativa
E a verdade absoluta.
A verdade relativa
A verdade relativa é o objeto do ordinário, ou seja, da mente deludida e das faculdades sensoriais deludidas. Manifestando-se como uma aparição, ela não tem essência ou verdade, mas é verdadeira enquanto preencher um certo papel para a mente deludida. A verdade relativa é o aspecto inteiro das aparências diante da mente, junto com o apego a elas como verdadeiras. Já que elas não têm essência, os fenômenos não existem como verdadeiros ou falsos, como delusão ou não-delusão, mas sim porque a mente identificou os objetos, dizendo, isto é uma faculdade, estes são os sentidos, e esta é uma casa; e ela diferencia e se apega a eles como sujeito e o objeto. O aspecto objetivo deste modo mental é chamado verdade relativa. A verdade relativa é caracterizada pelos fenômenos que estão circunscritos como objetos mentais e que não resistem à análise.
Todos os fenômenos existentes são originados através da causação interdependente. Os fenômenos que não existem mas que são presumidos como existentes, ou que são falsamente apreendidos pela mente, são contrastados com os fenômenos existentes. As entidades surgem através da causação interdependente. As não-entidades surgem através da operação da mente, similares ao nexo causal dos fenômenos objetivos, conhecido como a postulação interdependente. Os pensamentos, idéias e percepções delusórios - por exemplo, a corda que é confundida com uma cobra - são produtos da postulação interdependente.
A verdade absoluta
A verdade absoluta é a liberdade em relação a todas as elaborações e julgamentos, e é o objeto da sabedoria da auto-consciência diferenciadora.
Esta sabedoria é o insight não-deludido que transcende a expressão e os conceitos. O Buddha disse:
A sabedoria transcendente está além da concepção e além da expressão,
É não-surgida e incessante como a natureza do espaço,
É o objeto da sabedoria da auto-consciência diferenciadora:
Mãe de todos os buddhas dos três tempos, a você eu presto homenagem.
Esta auto-consciência não é a mesma que a da escola Mente Apenas (Chitamatrin), que a usa como um termo para a mente comum.
A verdade absoluta não é um objeto da mente.
Shantideva disse em seu Bodhicharyavatara IX:
A verdade absoluta não é um objeto da mente;
A mente é a verdade relativa.
A verdade absoluta é a meta última do treinamento espiritual; e é verdadeira como o caminho e resultado do treinamento e realização espirituais.
A verdade absoluta é a grande paz, a cessação, a natureza das coisas, que transcende os objetos da mente. Em seu sentido real, tanto as identidades das coisas quanto da natureza das coisas são igualmente puras, livres e perfeitas, e estão além das elaborações ou julgamentos. Estão afastadas das referências mentais e das referências características. As pessoas que realizam as duas verdades aperfeiçoam o caminho das acumulações duais e atingem o estado búddhico. Chandrakirti disse em seu Madhyamakavaratara VI:
O rei dos gansos, com as bem desenvolvidas asas brancas
as verdades relativa e absoluta, na presença dos gansos,
os seres, com o poder das virtudes.
Eles voam além do oceano de virtudes dos buddhas.
Do ponto de vista buddhista, para algo ser real, ele não deve depender de qualquer outra coisa além de si mesmo para a sua existência. Sua identidade não deve ser dependente do surgimento de qualquer outra coisa. Já que todos os fenômenos foram demonstrados como surgidos através de um processo de causação interdependente, a conclusão é que as coisas não têm "ser próprio" [existência inerente]. Esta ausência de identidade real é a sua natureza, e é chamada vacuidade. As duas verdades são as coisas e a natureza das coisas.
Elas nunca são encontradas separadamente. Elas são vacuidade porque são um surgimento interdependente, ao invés de serem independentemente reais. Se fossem reais, não haveria surgimento e cessação. Os fenômenos surgidos funcionam interdependentemente porque são vacuidade. Se não fossem vacuidade e irreais, nada poderia surgir, cessar ou funcionar através da originação dependente. Nagarjuna disse no Vigravyavartanikarika:
Os fenômenos que surgiram interdependentemente
São designados como vacuidade;
Tudo o que surge através das causas interdependentes
Não tem realidade.
Ambas as verdades são livres da realidade.
No Madhyamikavarata VI é dito:
Em ambas as verdades não há realidade essencial,
Então não são nem eternas nem nulas.
Quem quer que entenda o significado da vacuidade entenderá a lei do surgimento interdependente como, por exemplo, o princípio cármico. No Caminho do Meio, as duas verdades são a mesma [verdade], e essa verdade é o ensinamento do Buddha. No Vigravyavartanikarika é dito:
Para quem quer que a vacuidade seja possível,
Todos os significados são possíveis.
Para quem quer que a vacuidade não seja possível,
Nada é possível.
A vacuidade e o surgimento interdependente
São o mesmo no caminho do meio.
Para aquele que disse esta fala excelente,
O Buddha, eu presto homenagem.
Sem conhecer o significado das verdades, é impossível entender e realizar os ensinamentos buddhistas. Sem contar com o nível convencional não há como expressar, entender e realizar o significado absoluto a fim de atingir o nirvana.
É dito no Mulamadhyamakakarika XXIV:
Quem quer que não conheça as duas verdades
Não conhece a profunda talidade [sânsc. tathata].
Sem contar com o convencional,
O significado absoluto não pode ser ensinado ou descoberto.
Sem entender o significado absoluto,
O nirvana não pode ser atingido.
Na verdade absoluta, não há distinção entre a afirmação e a negação. Porém, estas divisões são mantidas na verdade relativa: quando engajado tanto no debate quando na contemplação da natureza última, não se mantém qualquer tese ou se apresenta qualquer visão, já que a natureza última é livre de manter ou apresentar qualquer visão. Quando estiver em um período de não-meditação ou quando lidar com o mundo convencional, deve-se ver, ponderar e ensinar aos outros os detalhes dos fenômenos existentes da verdade relativa como foi dado nas escrituras, isto é, que eles são como um sonho ou como uma aparição. Este reconhecimento da natureza das coisas, que são como um sonho, abrirá os olhos para caminho das duas acumulações e então se deverá atingir os dois corpos - o corpo último e o corpo da forma – do estado iluminado, o estado búddhico.
Fonte : http://www.nossacasa.net





















