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Como vivem os adolescentes chineses em Portugal

sexta-feira 30 de Abril de 2010, por Buddhachannel Portugal

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Sossegados e impenetráveis, quase invisíveis quando deslizam pela cidade, com eles fomo-nos cruzando assiduamente, primeiro nas mesas dos restaurantes, depois dentro das suas lojas atafulhadas de coisas. Habituámo-nos à sua presença dentro do mundo do trabalho. O resto é mistério. A maioria mal soletra o português. Mas para o nível da nossa comunicação tanto faz:
"Quanto, custa?". "É o prato 23". "Caril de lulas? Happy family?"

Happy family. O que sabemos nós sobre as famílias chinesas em Portugal?
Dizem-nos os números do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) que são 13.331, contas de 2008, e para o rácio das estatísticas apenas se somam os legais. Nestes números também não constam, por exemplo, os nomes de Ye Qian Qian, que tem Maria inscrito no BI, Hugo Wu, Jing Jin, Jing Wam... Jovens chineses a crescer em Portugal. Mas já lá vamos. Voltemos à cidade.

Se houvesse em Lisboa um lugar ao qual pudéssemos chamar a nossa Chinatown, ficaria algures entre Arroios e o Martim Moniz. Na Rua dos Anjos, o pastor da Igreja Evangélica Chinesa arruma as cadeiras de plástico com a porta aberta para a rua. Quase a chegar à Rua da Palma, louças de porcelana pintada com flores delicadas e dragões vermelhos brilham na vitrina de uma loja. No Largo do Martim Moniz, no supermercado Hua Ta Li, compram-se algas salgadas dentro de saquinhos transparentes, bolbos de lótus e de inhame e, na arca dos congelados, há peixes dos mares do Sul secos ao sol e pato lacado.
Numa ruela que se perde na encosta à Mouraria, um cartão discreto indica em mandarim que no segundo andar há dois restaurantes-casa que servem noodles em minúsculos quartos privados. Como na China. Estrangeiros não acedem. Agora, os estrangeiros somos nós.

Jin Jing e Jing Wang, de 16 e 14 anos, moram no Parque da Bela Vista, em Chelas, e dominam a linha vermelha do Metro de Lisboa. Vão regularmente ao Centro Comercial da Mouraria. É lá que cortam o cabelo. "Hong Kong", explica Jin, enquanto ajeita inúmeras vezes o gancho cor-de-rosa que lhe escorrega na franja lisa. Como tantas outras teenagers Jin adora passear nos shoppings Colombo e Vasco da Gama, e Wang, o irmão mais novo, gosta de jogar basquetebol com os amigos da escola e sentar-se à beira-rio nas tardes de Verão a comer hambúrgueres do McDonald’s, com o mp3 a reproduzir músicas de Taiwan.

Num português ainda carregado contam a história: a mãe, dona de uma loja em Chelas, veio em 1996. Na viragem do milénio chegou o pai. Ficaram na China entregues aos tios e a uma avó a terminar o primeiro ciclo. Só chegaram no final de 2005, quase adolescentes. Voltaram para a segunda classe, junto dos meninos de 8 anos. Precisavam de aprender a grafia e as palavras de uma língua incompreensível. Engoliram o mal-estar estudando muito. Adaptaram-se. Jing anda agora a fazer 7º, 8º e 9º de uma enfiada no Externato Marquês de Pombal, Wang está no 7º ano, na EB 2, 3 das Olaias.

Universitárias do norte da China no curso de português da Universidade Nova: a relação com os países africanos é a razão da escolha
Nas férias de Verão de 2008 regressaram a Pequim. A cidade tinha mudado muito e qualquer coisa dentro deles também. Pela primeira vez percebiam que já não tinham saudades.O apelido dos irmãos "Jing" tem o mesmo som da metrópole onde nasceram: Beijing. No seu trânsito transcontinental simbolizam os filhos de uma nova geração que chega de uma China em meteórica transformação.

"A sociedade chinesa está mais segura economicamente e sente um grande feedback internacional. Mas atravessa um dilema cultural. Por um lado, sente o desejo e o apelo da modernização; por outro, interroga-se como fazer para continuar a ser ’chinês’", explica a antropóloga Irene Rodrigues, do Instituto de Ciências Sociais e Política (ISCSP). Continua: "A modernidade é um valor ocidental e a sociedade chinesa resiste muito ao que vem de fora. Ser chinês ainda representa a cultura tradicional, e na estrutura social o núcleo familiar é o maior valor."

Na sociedade chinesa, o pilar da cultura familiar baseia-se numa relação entre pais e filhos, ancorada na ideia do retorno: "Nós tomámos conta de ti, tu olharás por nós quando formos velhos." Longe da China, os imigrantes vivem um sentimento de grande ambivalência em relação à educação dos seus. Se por um lado vieram à procura de melhores condições de vida e desejam que os filhos evoluam; por outro, têm medo que, ao tornarem-se portugueses, se afastem e quebrem os laços familiares.

"Adolescência, tal como a entendemos no Ocidente, é um conceito recente. Só na década de 80, com a geração que nasceu da política do filho único, é que se começou a dar importância à cultura juvenil. De um modo geral, os jovens chineses têm muito pouco tempo livre. A competitividade é enorme. Quando não estão a trabalhar estão a estudar." Diz-nos Irene, a antropóloga que durante dois anos viveu na China. "As decisões em relação à educação das crianças muitas vezes são decididas na infância, em consenso familiar. Quando os pais emigram, os filhos ficam com os avós e tios ou entregues a uma ama, até concluírem os estudos Só depois são chamados a juntar-se-lhes para trabalhar com a família. Mas o máximo que ambicionam é que os filhos adquiram prestígio social por via da educação e formação superior."
Fora do mundo

Hugo, 22 anos, é uma aproximação ao nome chinês Haiyong que os amigos portugueses lhe atribuíram. Estuda Tecnologia de Informação e Comunicação na Faculdade de Ciências de Lisboa e aparece desportivo e low-profile, com a sua pequena argola na orelha esquerda. "Moro em Benfica, a casa fica ao lado da nossa loja, igual a todas as outras. Vim de Zhejiang, perto de Xangai. Os meus pais eram camponeses, como quase todos os chineses que vieram para Portugal. Noventa por cento dos imigrantes que estão aqui, são dessa zona", diz Hugo Wu, que parece saber tudo sobre a sua comunidade. Atravessamos os corredores da faculdade, desertos àquela hora, e entramos na sala dos computadores: "É aqui que tenho passado o meu tempo nos últimos dois anos.
É raro um chinês filho de imigrantes da primeira geração andar na faculdade. Quando acabei o secundário também tive dúvidas, mas decidi encontrar a terceira saída. Todos os jovens chineses ajudam os pais, estamos habituados a trabalhar.
Quando acabei o ciclo queria ganhar dinheiro e tive essa dúvida", diz enrolando os braços à volta das pernas num gesto informal.

Maria Quian nasceu em Coimbra. Foi nos Anjos que estudou mandarim
Chegou a Portugal com 12 anos, em 1999. Recorda-se dos anos da adaptação. E no topo da lista das dificuldades, a comunicação. "É duríssimo.
Sentia-me fora do mundo. Qualquer miúdo chinês passou por isto. Essa é uma razão porque muitos desistem da escola."
Demorou quase três anos a conseguir algum domínio do português, ainda hoje lhe é difícil escrever relatórios. Com a fluência da língua, já em plena adolescência, vieram os primeiros amigos. Foi a fase em que se dava com portugueses e teve o seu grupo das idas ao cinema, dos jogos de computadores, das surfadas em Carcavelos. Só mais tarde, através da Net, nos chats do hi5, e do QQ (o messenger chinês) começou a estabelecer laços com outros jovens como ele: "A minha namorada vive no Alentejo. Conheci-a online." E se não fosse chinesa? Deixá-lo-iam os pais casar com uma portuguesa? "Ficariam preocupados", avança, para logo recuar: "Não quero falar sobre isso." Anda a pensar no futuro. Os primos foram estudar para os Estados Unidos, optou por ficar. Gosta do que conhece e lhe é confortável. Às vezes interroga-se: "O estudo compensa? Se abrisse uma loja ou um restaurante provavelmente ganharia muito mais."
Começam também a surgir-lhe outras interrogações e já não passam pelo mundo do trabalho: "Os pais chineses têm muita influência sobre os filhos, dão pouca liberdade. Em adulto gostaria de ter uma vida mais privada. Mas quando estiverem velhos, vou trazê-los para morar na minha casa. Acho que são estas as coisas que me fazem pensar que estou a sair da adolescência e a entrar no mundo real."

Hip hop no templo
Ao final da tarde de um domingo, numa rua de Cabo Ruivo, vislumbra-se através do vidro amplo um enorme Buda dourado. Lá dentro cheira a incenso.
Chega-nos o tom das orações ao som das batidas monocórdicas do
Olhamos para os corpos vergados. São todos adultos. De repente, há vozes agitadas de jovens que se cumprimentam em grande animação. Têm nomes portugueses e nas frases que dizem misturam palavras em mandarim.

O templo não é só o local do culto, serve de ponto de encontro dos filhos da segunda geração que vêm relacionar-se com a cultura de casa, pelas danças tradicionais, kung fu e, sobretudo, para passarem tempo juntos.A música começa a tocar. Raparigas e rapazes concentram-se nas coreografias do espectáculo que irão apresentar na Reitoria da Universidade de Lisboa, em honra do novo ano que começa. A dança é uma mistura entre disco e hip hop, em certos gestos há um tom oriental. Passarão horas nisto.

A presidente do grupo de jovens do Templo Budista de Lisboa tem 19 anos, chama-se Maria Quian Quian. Agora está sentada no restaurante da família em Paço de Arcos a contar como a sua personalidade foi formada entre dois mundos: "Nasci em Coimbra, só me dava com crianças portuguesas, não sabia o que significava ser excluída. Aos 10 anos vim para Lisboa, para uma escola pública com uma frequência complicada. Chateavam-me. Era boa aluna, comecei a ter problemas. Um dia andei à luta com outra menina e a minha mãe mudou-me para um colégio privado." Entrou nos Maristas de Carcavelos no 6º ano.

Chen Neibei na loja, em Massamá. Aprende português na Missão de Macau
Durante dois anos consecutivos, passou os intervalos sentada sozinha no corredor da escola: "Questionava-me porque não me aceitavam, mas sou paciente e aguentei. Não podia fazer nada." Não contou nada em casa: "Estavam cheios de trabalho, pagavam imenso dinheiro para eu andar no colégio. Não achei relevante dizer-lhes, era um problema meu." Tinha 13 anos.

Foi nesse tempo, que começou com a mãe a frequentar o templo budista, e, aos sábados, a escola chinesa dos Anjos, onde os jovens que nasceram cá e falam mandarim em casa vão aprender a escrever a língua dos pais. Assim, começou a sedimentar laços com a sua cultura familiar, que, de outro modo, dificilmente se estenderia à vida social.

Maria, que agora está a tirar o curso de Gestão Hoteleira, sabe a exacta medida onde se mistura oriente e ocidente na sua identidade: "Sou portuguesa, é isso que vem no meu BI, e gosto. Acho que é o que me dá uma visão aberta do mundo. A minha mãe não aceita a diferença. Mas também gosto da forma como vivemos em casa. Apesar de ser uma cultura muito sedimentada no trabalho, tem os valores mais certos para crescer." Uma única vez foi a uma discoteca.

Não gostou. Mas quando vai à China, adora as salas de karaoke, onde pode cantar em mandarim. Cá não conhece nenhum sítio onde possa fazê-lo. Foi, precisamente, numa dessas viagens que conheceu o namorado, chinês da Madeira, e percebeu que estava mais enraizado do que julgava o seu modo de ser português: "Íamos juntos aos restaurantes e aos parques de diversões.
Abraçavámo-nos e beijavámo-nos na rua sem sentir vergonha. Os namoros tradicionais chineses não são assim. Não se mostram em público determinados sentimentos."
Hábitos diferentes

Dificilmente encontraremos um bar onde se vejam adolescentes chineses em bando, copo na mão, ou numa discoteca a dançar. Mas se numa manhã de sábado passarmos pelos Anjos observaremos grupos das mais variadas idades, em frente à escola primária na Praça das Nações. Chegam agarrados aos telemóveis cheios de gadgets, mochilas às costas, phones nos ouvidos, roupa de centros comerciais.

Tal como a maioria dos jovens urbanos das grandes cidades. Têm o mesmo acesso à cultura virtual e aos seus códigos visuais. A escola chinesa de Lisboa abriu há dez anos e, neste momento, tem 500 alunos que passam aqui o dia, entre as 11h às 18h, a estudar mandarim e cultura chinesa. As instalações onde decorrem estas aulas fazem parte do agrupamento da Escola Preparatória Nuno Gonçalves.
Laurinda Pereira, directora da Nuno Gonçalves, explica: "Devido à grande concentração geográfica desta população em redor da escola há uma relação muito próxima com a comunidade. É aqui que fazemos o centro de exames que lhes dão a possibilidade de adquirir a nacionalidade e onde fazemos os cursos de língua e cultura portuguesa aos imigrantes que chegam para trabalhar e já não passam pelo sistema de ensino."

Também na Escola Nuno Gonçalves há um presença forte dos jovens chineses. "Já foi mais", avisa a directora: "2006 foi o ano do grande boom, depois começou a diminuir. De qualquer modo, não é uma população marcada pelo abandono escolar." Também na Missão de Macau em Lisboa, decorrem duas vezes por semana cursos de língua portuguesa para chineses, que lhes permitirá fazer o exame básico para aquisição da nacionalidade. São aulas livres. Neste momento, a sala está quase a metade.

Quando termina, os alunos desaparecem rapidamente. Nunca têm tempo a perder. O professor avisa: "Este é o mês em que se sente a maior ausência, pois aproveitam a data da passagem do ano para irem à China ver os seus familiares."O movimento constante entre os países para onde emigram e a China é outro dos traços particulares desta população. Pedro Góis, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra afirma: "Os anos de maior crescimento económico são um indicador fiável. Coincidem com picos de emigração, como por exemplo os anos em redor da Expo-98 e os primeiros do milénio. A primeira geração saiu da ruralidade da China e esta segunda é uma geração de sucesso. Move-se com grande à-vontade na Comunidade Europeia.
A terceira escolherá a América. O destino do sonho."

Em São Domingos de Rana, na escola internacional Saint Dominic’s, o inglês é a língua dominante. No entanto, não são os filhos dos empresários nem dos diplomatas da comunidade anglo-saxónica que ocupam a taxa de maior população. Entre os 698 alunos, em primeiro lugar estão os portugueses, logo de seguida os chineses. São 39. É uma das escolas mais caras do país. Fazer International Baccalaureat (IB) custa, anualmente, 18 mil euros.

Fan Ru Su, Gengsha Qian e André Ma estão a terminar o IB. Fan e Gengsha vivem no Parque das Nações, André em Carcavelos. Dos três, só Fan fala português. Andou até ao 7º ano na Nuno Gonçalves, a loja da família é no Martim Moniz. Gengsha chegou há um ano da China. Vive sozinho com a mãe, o pai ficou lá. Encolhe-se quando perguntamos porquê. Não é suposto um rapaz chinês falar sobre divórcios com estranhos. "É uma coisa recente nas famílias chinesas", ajuda Fan. André é mais solto. É de Macau. A relação com a família é menos exigente e a liberdade também é maior. Amanhã fará 18 anos, vai comemorar com os amigos para Cascais. A ele não lhe impõem horas.

Já Fan, 19 anos, se quiser sair tem de estar em casa às 11 da noite. Para ela, a rapariga, as regras são ainda mais apertadas.Têm noção do elevadíssimo esforço que custa a sua educação. Se tudo correr bem, no próximo ano, Fan estará em Inglaterra. Será engenheira química. Estudar no Reino Unido assegurará a entrada no mundo do trabalho, mas também uma fuga ao estrito perímetro da vigilância familiar.

Gengha, 18 anos, ainda vive rodeado do mundo chinês: livros, Net, jornais, CCTV (o canal chinês por cabo)... mas começa a adaptar-se. A escola é fácil, a carga horária na China é brutal: das oito da manhã às sete da tarde.

O que verdadeiramente o surpreende cá são as relações entre rapazes e raparigas. "Até entrarmos para a universidade é difícil namorar. Os professores vêm explicar que não temos idade para assumir essa responsabilidade. Os pais ficam preocupados com a ideia de que um namoro possa afectar os estudos." E se lhe acontecer apaixonar-se? Prontamente, responde: "Não acontece, não há tempo." Será mesmo assim? Hesita: "São os nossos segredos..." Eis que se abre uma possibilidade na voz do rapaz do futuro: "Aqui, primeiro agem, depois pensam. Lá, podemos ficar apaixonados sem ninguém saber, sem nada se concretizar. E só avançamos na altura certa para avançar."

http://aeiou.expresso.pt/como-vivem-os-adolescentes-chineses-em-portugal=f564646

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