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O Sutra do Lotus- Capítulo Quatro: Fé e Compreensão

segunda-feira 21 de Março de 2016

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Capítulo Quatro: Fé e Compreensão

Nessa ocasião, quando os homens de longeva sabedoria, Subhuti, Mahakatyayana, Mahakashyapa e Mahamaugdalyayana ouviram do Buda a Lei nunca antes conhecida, e ouviram o Honrado Pelo Mundo profetizar que Shariputra atingiria anuttara-samyak-sambhodi, as suas mentes dançaram de alegria comovidas como nunca. De imediato levantaram-se dos seus assentos, compuseram as suas vestes, descobriram o ombro direito e ajoelharam-se sobre o joelho direito. Juntando as palmas das mãos reverentemente, e com uma só mente, curvaram-se em sinal de respeito, fitando reverentemente a face do Honrado Pelo Mundo, disseram a Buda: “Nós encabeçamos o conjunto dos monges e estamos velhos e decrépitos. Acreditáva-mos que tínhamos já atingido o nirvana e que éramos incapazes de fazer mais, por isso nunca pensamos em atingir anuttara-samyak-sambhodi.

“Passou-se muito tempo desde que o Honrado Pelo Mundo começou pela primeira vez a expor a Lei. Durante esse tempo nós sentamo-nos nos nossos lugares, os nossos corpos cansados e inertes, meditando unicamente nos conceitos de vacuidade, não-forma e não-acção. Mas quanto aos prazeres e poderes transcendentais da Lei do bodhisattva e quanto à purificação das terras Búdicas e à salvação dos seres viventes, nisso as nossas mentes não tomaram parte. Porquê? Porque o Honrado Pelo Mundo tornou possível para nós transcender o triplo mundo e atingir a iluminação do nirvana.
“Além disso, nós somos velhos e decrépitos. Quando ouvíamos acerca de anuttara-samyak-sambhodi, que o Buda emprega para ensinar e converter os bodhisattvas, as nossas mentes não ficavam cheias de qualquer pensamento de alegria ou aprovação. Mas agora, na presença do Buda, nós recebemos a profecia de que este ouvinte atingiria anuttara-samyak-sambhodi e as nossas mentes ficaram plenas de deleite. Ganhámos o que nunca antes tivemos. Subitamente, nós conseguimos ouvir uma Lei que é rara de encontrar, algo que nunca até aqui esperáramos, e temo-nos na conta de muito afortunados. Nós ganhámos grande bondade e benefício, uma jóia rara e imensurável, algo inesperado que surgiu por si mesmo.

“Honrado pelo Mundo, nós gostaríamos agora de empregar uma parábola para tornar claro o que queremos dizer. Suponhamos que existia um homem, ainda novo, que tendo abandonado o seu pai, fugiu e viveu por muito tempo noutra terra, talvez por dez anos, vinte, ou mesmo cinquenta anos. À medida que envelheceu, ficou cada vez mais pobre e necessitado. Ele procurou em todas as direcções por comida e vestuário, errando cada vez mais longe até que o acaso o levou na direcção da sua terra natal.

“O pai entretanto tinha procurado o filho sem sucesso e fixou a sua residência numa certa cidade. A sua casa era muito abastada, com inúmeras riquezas e tesouros. Ouro, prata, lápis-lazuli, coral, âmbar e cristal abundavam nos seus armazéns. Tinha muitos criados, secretários, empregados, elefantes, cavalos, carruagens, bois e veados sem conta. Estava envolvido em empreendimentos lucrativos quer na sua casa quer nas redondezas, e tinha também muitos negócios com comerciantes e caixeiros viajantes.

“Nessa altura o filho pobre vagabundeava de terra em terra, passando por muitas cidades e vilas, até que por fim chegou à cidade onde o seu pai residia. O pai pensava constantemente no seu filho, mas apesar de terem decorrido mais de cinquenta anos desde a sua partida nunca falara desse assunto a ninguém. Ele apenas ponderava para si o seu coração cheio de mágoa e saudade. Ele achava-se velho e decrépito. Tinha grandes posses e fortuna, ouro, prata e tesouros raros que enchiam a transbordar os seus armazéns, mas não tinha nenhum filho, de modo que quando morresse as suas posses seriam desbaratadas e perdidas, pois não havia ninguém a quem confiá-las.

“Por esta razão ele pensava tão seriamente no seu filho. E tinha também este pensamento: se eu conseguisse encontrar o meu filho e lhe pudesse confiar as minhas posses, poderia então sentir-me contente e em paz, sem mais preocupações.

“Honrado Pelo Mundo, nessa altura o filho pobre passava de um trabalho para outro até que por acaso foi ter a casa do seu pai. Ele parou perante os portões, olhando de longe para o seu pai que estava num trono de leão, as suas pernas apoiadas numa banqueta de jóias, enquanto Brahmans, nobres e proprietários o rodeavam com deferência. Grinaldas de pérolas no valor de milhares adornavam o seu corpo, e servos e empregados, segurando grandes leques brancos, ladeavam-no perfilados ao seu serviço. Um dossel de jóias cobria-o, com bandeiras floridas penduradas, água perfumada aspergida pelo chão, pilhas de flores raras espalhadas, e objectos preciosos estavam constantemente a passar e a ser levados ou trocados. Estes eram os muitos e variados adornos, os sinais e marcas de distinção

“Quando o filho pobre viu a grandeza do poder e autoridade do seu pai, ficou cheio de medo e arrependido por ter ido àquele local. Pensou secretamente para si: deve ser algum rei, ou alguém semelhante a um rei. Este não é o tipo de lugar onde eu possa arranjar trabalho e ganhar a vida. Seria melhor ir para uma vila pobre onde, se eu trabalhar arduamente, consiga encontrar um lugar para viver e ganhar o meu alimento e comida. Se eu ficar aqui por mais tempo, posso ainda ser preso! Tendo pensado assim foi-se embora daquele local.

“Nessa altura, o homem rico, sentado no seu trono, viu o seu filho e reconheceu-o de imediato. O seu coração encheu-se de alegria e pensou: Agora tenho alguém a quem confiar os meus armazéns de riquezas! Os meus pensamentos estiveram sempre com este meu filho mas eu não tinha maneira de o ver. Agora ele apareceu subitamente, correspondendo ao que eu tinha desejado. Apesar de eu ser velho e decrépito, ainda me preocupo com o destino dos meus pertences.

“Então ele mandou um empregado ir atrás do filho o mais depressa possível e trazê-lo de volta. O mensageiro correu rapidamente e alcançou-o. O filho pobre, assustado e alarmado, gritou desesperado, “Não fiz nada de mal! Porque me querem prender?” mas o mensageiro segurou-o firmemente e trouxe-o de volta

“Nessa altura o filho pensou, “Não cometi nenhum crime e ainda assim sou levado prisioneiro. Ainda vão acabar por me matar!” Estava mais assustado do que nunca e caiu no chão, desmaiando de desespero.

“O pai, vendo isto à distância, disse ao mensageiro, “Não preciso deste homem. Não o forcem a vir aqui. Espalhem água pela sua cara para que recobre os sentidos e depois não lhe digam mais nada!”

“Porque é que ele fez isso? Porque sabia que o seu filho era de modestas ambições e dificilmente aceitaria o seu poder e condição eminentes. Ele sabia muito bem que esse era o seu filho mas como meio hábil não o disse a ninguém.

“O mensageiro disse então ao filho pobre, “Vou libertar -te. És livre de ir para onde quiseres.” O filho ficou radiante, ganhando o que nunca tivera antes. Levantou-se do chão e dirigiu-se para a cidade de modo a procurar comida e roupa.

“Nessa altura o homem rico, desejando atrair o seu filho de volta, decidiu empregar um meio hábil e enviar dois homens disfarçados, homens de aspecto magro e macilento sem nenhum indício ameaçador. ”Ide procurar esse pobre homem e aproximem-se dele de forma casual. Digam-lhe que conhecem um lugar onde pode ganhar o dobro do salário habitual. Se ele concordar com a proposta, trazei-o para aqui e ponham-no a trabalhar. Se ele perguntar que tipo de trabalho lhe será destinado, digam-lhe que terá de limpar excremento e que vocês trabalharão com ele.”

“Os dois mensageiros foram de imediato procurar o herdeiro, e quando o encontraram, falaram-lhe de acordo com as instruções recebidas. Então o filho pediu um adiantamento do seu salário e foi depois com eles para ajudar na limpeza do excremento.

Quando o pai viu o seu filho, compadeceu-se e preocupou-se com ele. Dias depois, quando olhava da janela, viu o filho à distância, o seu corpo magro e macilento, sujo de excremento, imundície e impureza. O pai de imediato tirou os colares, as vestes finas e os outros adornos e vestiu roupas velhas e sujas. Espalhou sujidade no corpo, pegou num utensílio para remover excremento e adoptando modos rudes, falou para os empregados dizendo, “Continuem o vosso trabalho! Não sejam preguiçosos!” Através deste meio hábil ele foi capaz de se aproximar do filho.

“Mais tarde, ele falou novamente ao filho, dizendo, “Deves continuar neste trabalho sem nunca me deixares. Eu aumentarei o teu salário e quanto àquilo de que precisares, quer sejam utensílios, arroz, farinha, sal, vinagre e outros bens, não te deves preocupar. Eu tenho um velho criado que te pode ajudar quando precisares. Podes estar à vontade. Eu serei como um pai para ti. Porque digo isto? Porque já sou entrado em anos, mas tu és novo e robusto. Quando estás a trabalhar nunca és enganador ou preguiçoso nem dizes palavras rancorosas ou ressentidas. Não pareces ter nenhuma dessas faltas que os meus outros trabalhadores têm. De agora em diante, tu serás como meu próprio filho”. E o homem rico tratou de escolher um nome para o homem como se ele fosse seu filho.

“Nessa altura o filho pobre, apesar de se sentir encantado com este tratamento, ainda se via a si próprio como uma pessoa de condição humilde que estava ao serviço de outrem. Entretanto o homem rico manteve-o a limpar excremento nos vinte anos seguintes. Ao fim desse tempo, o filho sentia que confiavam nele e movimentava-se à vontade, mas continuava a viver no mesmo lugar de sempre.

“Honrado Pelo mundo, nessa altura o homem rico adoeceu e soube que não tardaria a morrer. Falou então com o filho dizendo, “Tenho grandes quantidades de ouro, prata e tesouros raros que enchem os meus armazéns. Deves assumir agora o controlo das somas que tenho e das despesas e receitas. Porquê? Porque de agora em diante tu e eu não nos comportaremos como duas pessoas independentes. Por isso deves manter o teu bom senso e garantir que não haja perdas ou erros.”

“Então o filho pobre, tendo recebido estas instruções, tomou a seu cargo a vigilância de todos os bens, o ouro, a prata, os tesouros raros e os vários armazéns, mas nunca pensou em apropriar-se da mais pequena soma. Continuou a viver no mesmo local de sempre, vendo-se a si mesmo como uma pessoa humilde e de baixa condição.

“Após ter passado algum tempo, o pai percebeu que o filho, a pouco e pouco, ia-se tornando mais auto confiante e disposto a concretizar tarefas importantes, apesar da opinião depreciativa que tinha de si mesmo anteriormente. Verificando que o seu fim estava próximo, ordenou-lhe que marcasse uma reunião com o rei do país, os ministros, os nobres e os proprietários. Quando estavam todos juntos, fez o seguinte anúncio: “Senhores, deveis saber que este é meu filho de nascimento. Em tal cidade ele deixou-me e fugiu e por cinquenta anos acarretou sofrimentos e dificuldades. Tal é o seu nome original e tal é o meu nome. No passado, quando ainda vivia na minha cidade de nascimento, preocupava-me com ele e saí a procurá-lo. Algum tempo depois, subitamente, calhei de o encontrar. Este é verdadeiramente o meu filho e eu sou o pai dele. Agora, tudo o que me pertence, todos as minhas posses e fortuna passam por direito a pertencer-lhe. Todos os assuntos de receitas e despesas ocorridos no passado são já do seu conhecimento.”

“Honrado Pelo Mundo, quando o filho pobre ouviu estas palavras do pai, foi invadido por uma grande alegria, tendo ganho o que nunca possuíra, e pensou para si: “Originalmente nunca tive qualquer ideia de cobiça por essas coisas. No entanto estes armazéns de tesouros vieram por si mesmos ter comigo!

“Honrado Pelo Mundo, este homem velho com as suas riquezas não é senão o Tathagata e nós somos como filhos de Buda. O Tathagata diz-nos constantemente que somos seus filhos. Mas por causa dos três sofrimentos, Honrado Pelo Mundo, no meio do nascimento e da morte, sofremos ansiedades ardentes, ilusões e ignorância, deleitando-nos e apegando-nos às doutrinas menores.

Mas hoje o Honrado Pelo Mundo fez-nos ponderar cuidadosamente, pôr de lado essas doutrinas, os debates impuros e frívolos.

“Fomos diligentes e esforçados nestas matérias até alcançarmos o nirvana, o que é como o salário de um dia. Assim que o atingimos, os nossos corações encheram-se de alegria e consideramos que isso era suficiente. De imediato dissemos para nós mesmos, “Por termos sido diligentes e esforçados em relação à Lei Budista, ganhamos esta abertura e riqueza de entendimento.”

“Mas o Honrado Pelo Mundo, sabendo como, desde o passado, as nossas mentes estavam apegadas a desejos demeritórios e se deleitavam com doutrinas menores, perdoou-nos e tolerou-nos assim mesmo, sem tentar avançar demasiado, dizendo, “Vocês virão a possuir a perspicácia do Tathagata, a vossa porção do repositório de tesouros!” Em vez disso, o Honrado Pelo Mundo usou o poder dos meios hábeis, e ensinou-nos a sabedoria do Tathagata, de tal forma que pudemos escutar o Buda e alcançar o nirvana, o que é apenas o salário de um dia. E por termos considerado isto um grande ganho, não tínhamos desejo de seguir o Grande Veículo.

“Além disso, apesar de expormos e propagarmos a sabedoria de Buda em prol dos bodhisattvas, não aspirávamos alcançá-la. Porque digo isto? Porque o Buda, sabendo que as nossas mentes se deleitavam nas doutrinas menores, empregou o poder dos meios hábeis para nos ensinar de forma adequada. Por isso nós não sabíamos que éramos na verdade filhos de Buda. Agora sabemo-lo finalmente.

“Em relação à sabedoria de Buda, o Honrado Pelo Mundo é sempre generoso. Porque digo isto? Desde sempre que somos verdadeiramente filhos de Buda, mas deleitávamo-nos apenas nas doutrinas menores. Se tivéssemos o tipo de mente que se deleita nas doutrinas maiores, então o Buda ter-nos-ia ensinado a Lei do Grande Veículo.

“Agora neste sutra o Buda expõe apenas o veículo único. E no passado, quando em presença dos bodhisattvas ele depreciava os ouvintes que se compraziam na doutrina menor, o Buda estava afinal a empregar o Grande Veículo para nos ensinar e converter. Por isso dizemos que, apesar de originalmente não termos uma mente que cobiçasse tal coisa, agora o grande tesouro do Rei do Dharma chegou por si mesmo até nós. É algo que os filhos de Buda têm o direito de adquirir, e agora eles alcançaram-no inteiramente.”

Nessa altura Mahakashyapa, desejando expor o sentido das suas palavras uma vez mais, falou em verso, dizendo:

Hoje ouvimos

a voz do ensinamento do Buda

e dançamos de alegria,

tendo ganho o que nunca possuímos.

O Buda declara que os ouvintes

serão capazes de atingir a Iluminação.

Este cacho de jóias insuperáveis,

veio até nós de forma imprevista.

É como o caso de um rapaz

que, ainda jovem e sem entendimento,

abandonasse o seu pai e fugisse,

indo para uma terra longínqua,

andando de um país para outro

por mais de cinquenta anos.

O seu pai, preocupado,

procurou-o em todas as direcções

até que, cansado de procurar,

se fixou numa certa cidade.

Aí construiu uma residência

onde pudesse dar largas aos cinco desejos.

A sua casa era grande e luxuosa,

com grandes quantidades de ouro, prata,

madrepérola, ágata, pérolas, lápiz-lázuli,

elefantes, cavalos, touros,

palanquins, carruagens,

campos de cultivo, empregados

e outras pessoas em grande número.

Envolveu-se em negócios lucrativos

em sua casa e nas terras das redondezas,

e tinha comerciantes e vendedores ambulantes

espalhados por toda a parte.

Milhares, dezenas de milhar, milhões

rodeavam-no e prestavam-lhe reverência;

gozava constantemente dos favores

e considerações dos governantes.

Os oficiais e famílias poderosas

todos se juntavam prestando-lhe honrarias,

e os que por uma ou outra razão

se juntavam à sua volta eram muitos.

Essa era a sua vasta fortuna,

o seu grande poder e influência.

Mas ele estava velho e decrépito

e recordava o seu filho com mais ansiedade do que nunca,

dia e noite sem pensar em mais nada:

“Agora aproxima-se a hora da minha morte.

Mais de cinquenta anos passaram

desde que aquele rapaz tolo me abandonou.

Os meus armazéns repletos de mercadoria -

o que será feito deles?”

Nessa altura o filho pobre

andava à procura de roupa e comida,

indo de terra em terra, de país para país,

por vezes encontrando algo,

por vezes não encontrando nada,

faminto e macilento,

o seu corpo coberto de feridas e infecções.

À medida que se deslocava de lugar em lugar,

chegou à cidade onde o seu pai vivia,

mudando de um trabalho para outro

até chegar à casa do seu pai.

Nessa altura, o homem rico

tinha estendido um grande dossel de jóias

dentro dos seus portões

e estava sentado no seu trono de leão,

rodeado pelos seus dependentes

e vários empregados e guardas.

Alguns estavam a contar ouro, prata

e objectos preciosos,

ou registando em livros

as entradas e saídas de dinheiro.

O filho pobre,

observando quão eminente e distinto era o seu pai,

pensou tratar-se do rei de algum país

ou alguém da mesma condição.

Alarmado e cheio de admiração,

perguntou a si mesmo porque tinha ido até ali.

Secretamente pensou para si,

se eu ficar aqui muito mais tempo

ainda acabo por ser preso

ou condenado a trabalhos forçados!

Logo que este pensamento lhe ocorreu,

fugiu daquele local,

perguntando onde haveria uma vila modesta

onde pudesse arranjar emprego.

O homem rico nessa ocasião,

sentado no seu trono de leão,

viu o seu filho à distância

e reconheceu-o sem nada dizer.

Imediatamente instruiu um mensageiro

para correr atrás dele

e o trazer de volta.

O filho pobre, gritando de terror,

caiu de aflição.

“Este homem mandou-me prender

e de certeza que me vai mandar matar!

Pensar que a minha busca por comida e vestuário

havia de me trazer a isto!”

O homem rico sabia que o seu filho

era ignorante e humilde.

“Ele nunca acreditará nas minhas palavras,

nunca acreditará que eu sou o seu pai.”

Então empregou um meio hábil,

mandando outros homens ter com o seu filho,

um só com um olho, outro débil e grosseiro,

completamente destituídos de qualquer aparência imponente,

dizendo-lhes, “Falem com ele

e digam-lhe que eu lhe darei emprego

para remover excremento e sujidade,

pagar-lhe-ei o dobro do salário habitual.”

Quando o filho pobre ouviu isto ficou satisfeito,

foi com os mensageiros e trabalhou a remover excremento e sujidade

e a limpar as dependências da casa.

Da sua janela o homem rico

podia observar constantemente o seu filho,

pensando como ele era ignorante e humilde,

deleitando-se nesse trabalho menor.

Nessas alturas o homem rico punha uma roupa suja e esfarrapada,

pegava num utensílio para remover excremento

e ia até junto do seu filho,

usando este meio hábil para se aproximar dele,

encorajando-o a trabalhar diligentemente.

“Aumentei os teus proventos e dei-te óleo para espalhares nos pés.

Verei se tens comida e bebida suficiente,

cama e roupa espessa e quente.”

Outras vezes falava-lhe com severidade:

“Deves trabalhar arduamente!”

ou então dizia-lhe com uma voz gentil,

”És como um filho para mim.”

O homem rico, sendo sábio,

gradualmente foi permitindo ao seu filho

entrar e sair da casa.

Após terem passado vinte anos,

pô-lo na gestão dos assuntos domésticos,

mostrando-lhe o seu ouro, prata,

pérolas, cristal, e as outras coisas

que eram recebidas e trocadas,

de modo a que ele ficasse ao corrente de tudo.

Apesar do filho continuar a morar fora dos portões,

dormindo num monte de palha,

vendo-se a si mesmo como sendo pobre,

pensando, ”Nada disto é meu”,

o pai sabia que as suas perspectivas se iam alargando

e tornando mais magnânimes.

Desejando doar ao filho as suas riquezas e bens,

o pai juntou os seus dependentes,

o rei do país e os ministros,

os nobres e os proprietários.

Na presença desta grande assembleia declarou,

“Este é o meu filho

que me abandonou e vagueou pelo mundo

durante cinquenta anos.

Desde que o encontrei,

passaram-se vinte anos.

Há muito tempo, em tal e tal cidade,

quando perdi o meu filho,

viajei por toda a parte à sua procura

até ter vindo aqui parar.

Tudo o que possuo,

as minhas propriedades e empregados,

eu entrego-as inteiramente a ele

para que faça o que entender.”

O filho pensou então que no passado ele tinha sido pobre,

humilde e ignorante,

mas agora recebera do seu pai

este enorme legado de tesouros raros,

em conjunto com as casas do seu pai

e todos os seus bens e fortuna.

Ficou cheio de grande alegria,

tendo ganho o que nunca antes possuíra.

Assim é o Buda.

Ele sabe as nossas preferências mesquinhas,

e por isso nunca nos disse,

“Podeis atingir a Iluminação.”

Em vez disso explicou-nos

como poderíamos livrar-nos de falhas,

empreender o pequeno veículo

e sermos Discípulos Menores,

discípulos ouvintes.

Então o Buda mandou-nos

difundir a suprema via

e explicar que aqueles que a praticam

serão aptos a atingir a Iluminação.

Recebemos os ensinamentos de Buda

e em prol dos grandes bodhisattvas

utilizamos causas e condições,

várias metáforas e parábolas,

uma variedade de palavras e frases,

para pregar a via insuperável.

Quando os filhos de Buda

recebiam de nós a Lei,

ponderavam dia e noite,

praticando-a diligentemente e com esforço.

Nessa altura o Buda

outorgava-lhes profecias, dizendo,

“Numa existência futura

conseguirás atingir a Iluminação.”

Os vários Budas

na sua Lei do repositório secreto

estabeleceram os verdadeiros factos

unicamente em prol dos bodhisattvas;

não é para nós

que eles expõem as verdadeiras essências.

É como o caso do filho pobre

que foi capaz de se aproximar do seu pai.

Apesar de conhecer as posses do seu pai,

no seu coração ele não tinha qualquer intenção de se apoderar delas.

Assim, apesar de ensinar-mos

o tesouro do repositório da Lei do Buda,

não procurávamos atingí-la,

e desta forma o nosso caso é semelhante.

Nós procurávamos apenas limpar o que existia em nós,

acreditando ser isso suficiente.

Nós compreendíamos apenas isto

e nada sabíamos das outras matérias.

Ainda que ouvíssemos falar

da purificação de terras de Buda,

de ensinar e converter os seres viventes,

não nos deleitávamos nessas coisas.

Porquê?

Porque todos os fenómenos

são uniformemente vazios, tranquilos,

sem nascimento ou extinção,

sem grandeza ou pequenez,

sem perdas, sem acção.

E quando se pondera desta forma

não se pode sentir deleite ou alegria.

Através da longa noite,

em relação à sabedoria de Buda

nós éramos sem avidez, sem apego,

sem qualquer desejo de a possuir.

Acreditávamos

possuir a derradeira Lei.

Através da longa noite

praticávamos a Lei da vacuidade

libertando-nos do triplo mundo

e da sua carga de sofrimento e cuidado.

Estávamos na nossa existência final,

próximos do nirvana.

Através do ensinamento e da conversão do Buda

ganhamos uma via que não era vã,

e procedendo assim

expiamos a nossa dívida

para com a bondade de Buda.

Apesar de, em prol dos filhos de Buda,

pregarmos a Lei do Bodhisattva,

incitando-os a procurar a via do Buda,

nós nunca aspiramos a essa Lei.

Estávamos então abandonados

pelo nosso guia e mestre

porque ele observou o que ia nas nossas mentes.

Desde o princípio

ele nunca nos encorajou

ou nos falou do verdadeiro benefício.

Era como o homem rico

que sabia que as ambições do seu filho eram fracas

e que usou o poder dos meios hábeis

para suavizar e moldar a sua mente,

de forma a, mais tarde,

lhe confiar todos os seus tesouros e fortuna.

Assim é o Buda,

recorrendo a subtis linhas de acção.

Conhecendo as preferências mesquinhas de alguns,

ele usa o poder dos meios hábil

para moldar e temperar as suas mentes,

e só então lhes ensina a grande sabedoria.

Hoje ganhamos

o que nunca possuíramos antes;

o que nunca tínhamos previamente esperado

veio até nós por si mesmo.

Somos como o filho pobre

que ganhou um tesouro imensurável.

Honrado Pelo Mundo,

agora ganhamos a via e o seu fruto;

através da Lei sem falhas

ganhamos a pura visão.

Através da longa noite

nós observamos os puros preceitos do Buda

e hoje pela primeira vez

ganhamos o fruto, a recompensa.

Por muito tempo, na Lei do Rei do Dharma,

levamos a cabo práticas brahma;

agora obtivemos o estado sem falhas,

o grande e insuperável fruto.

Agora tornámo-nos verdadeiros ouvintes,

porque daremos voz à via do Buda

e fá-la-emos ouvir por todos.

Agora tornámo-nos verdadeiros arhats,

porque em toda a parte

entre os seres celestiais e humanos,

demónios e Brahmas dos vários mundos,

merecemos receber oferendas.

O Honrado Pelo Mundo na sua grande misericórdia

faz uso de uma coisa rara,

ensinando e convertendo com piedade e compaixão,

trazendo-nos benefícios.

Em inumeráveis milhões de kalpas

quem poderá alguma vez recompensá-lo?

Ainda que lhe ofereçamos as nossas mãos e pés,

curvando as nossas cabeças em respeitosa obediência

e apresentemos todos os tipos de ofertas,

nenhum de nós lhe poderá alguma vez pagar.

Ainda que o transportássemos no alto das nossas cabeças,

o levássemos nos nossos ombros

por kalpas numerosos como as areias do Ganges,

prestando-lhe reverência de todo o coração;

ainda que lhe levássemos comidas delicadas,

com incontáveis mantos debruados a jóias,

enxovais, vários tipos de poções e remédios;

ainda que fizéssemos tudo isto como oferenda

por kalpas numerosos como as areias do Ganges,

ainda assim não lhe poderíamos pagar.

Os Budas possuem

imensuráveis, ilimitados,

inimaginavelmente grandes, raramente vistos

poderes transcendentais.

Livres de falhas, livres de acção,

estes reis das doutrinas, em prol dos fracos e humildes

exercem a paciência nestas matérias;

aos comuns mortais apegados às aparências

pregam de acordo com o que é apropriado.

Em relação à Lei, os Budas

são capazes de exercer uma total liberdade.

Eles compreendem os vários desejos e alegrias

dos seres viventes, bem como os seus diferentes anseios e habilidades,

e podem ajustar às suas capacidades,

empregando inumeráveis metáforas

para lhes expor a Lei.

Utilizando as boas raízes

plantadas pelos seres viventes em prévias existências,

distinguindo entre aqueles cujas raízes estão maduras

e aqueles cujas raízes ainda não amadureceram,

executam vários cálculos,

discriminações e percepções,

e então tomam a via do veículo único

e de acordo com o que é apropriado,

ensinam-na como se fosse tripla.

Fonte: http://budadharma.paginas.sapo.pt
Traduzido a partir da versão inglesa de Burton Watson

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